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Juntos para quê?


Mark Dever


Mark Dever é pastor da Igreja Batista de Capitol Hill, no distrito de Washington; fundador do ministério 9Marcas e um dos organizadores do ministério Juntos Pelo Evangelho; conferencista internacional e autor de vários livros, incluindo os livros “Nove Marcas de Uma Igreja Saudável”,”Refletindo a Glória de Deus” e “Deliberadamente Igreja”, todos publicados em português pela Editora FIEL.

Bob, um calouro na universidade, se convenceu da doutrina da eleição e passou a ter um forte desejo de convencer as demais pessoas. Ele encontra-se no primeiro “estágio de empolgação e hiper-atividade” do calvinismo.
Imagine as conversas dele com seus amigos, com seus colegas da faculdade, com as pessoas na igreja.
Tudo se torna uma ilustração da soberania de Deus. Bob não quer falar de outra coisa, e se você discordar dele, é melhor ter cuidado!
A pergunta que fica para você e para mim é a seguinte: quando ensinamos a verdade às pessoas, nós o fazemos com orgulho e arrogância condescendentes — sabemos de algo que elas não sabem? Ou ensinamos com a humildade de um mendigo dividindo seu pão com outro?
Transigir é ruim. Cooperar é bom. Mas, como diferenciar uma coisa da outra? Quais são as principais posições doutrinárias pelas quais precisamos lutar? E, dentre as demais posições, a respeito de quais podemos discordar com tolerância e amor?
Gostaria de refletir sobre como é possível encorajarmos uns ao outros a defender a verdade com humildade fazendo seis perguntas:

  1. Seguimos ordens de purificar ou de conciliar?

  2. Quais são algumas das lutas que os cristãos habitualmente têm?

  3. Qual é o propósito específico da cooperação?

  4. Sobre o quê os cristãos devem concordar? (princípios essenciais)

  5. Sobre o quê os cristãos podem discordar? (princípios não-essenciais)

  6. Como os cristãos podem discordar apropriadamente?
1. SEGUIMOS ORDENS DE PURIFICAR OU DE CONCILIAR?
Em primeiro lugar, seguimos ordens de purificar ou de conciliar?
O problema básico
Creio que a maioria dos cristãos reconhece um problema com o qual nos deparamos: vivemos num mundo caído onde a verdade nem sempre é bem-vinda. O que é verdadeiro não é necessariamente igual ao que é popular.
Assim como o D. Martyn Lloyd-Jones disse: “Houve períodos na história quando a preservação da própria vida da igreja dependeu da capacidade e prontidão de grandes líderes ao diferenciar a verdade do erro e ousadamente defender o que é bom e rejeitar o que é falso. Entretanto, nossa geração não gosta de nada que seja assim. Ela é contra qualquer demarcação clara e precisa da verdade e do erro.” (D. Martyn Lloyd-Jones, Mantendo a Fé Evangélica Hoje [São Paulo: PES])
Não deveríamos nos surpreender com épocas como a nossa, quando as pessoas se opõem a distinguir a verdade do erro. Em sua última carta, Paulo adverte: “Haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (2Tm 4.3-4).
Será que Paulo estava simplesmente paranóico – concentrado demais em idéias sobre a verdade? Acho que não. O Senhor Jesus ensina que estejamos de sobreaviso. Foi Ele que ensinou: “Surgirão falsos cristos e falsos profetas, operando sinais e prodígios, para enganar, se possível, os próprios eleitos. Estai vós de sobreaviso” (Mc 13.22-23).
Como ficamos de sobreaviso? Devemos admitir que todos tendemos a aceitar demais (menosprezando assim o chamado de Deus para sermos puros e subestimando sua verdade) ou restringir demais (desprezando assim a generosidade do amor de Deus e os surpreendentes exemplos de sua obra).

Você percebe como isso acontece? Ao colocar a Palavra de Deus contra si mesma; ao colocar um aspecto do caráter de Deus contra outro – digamos, sua santidade contra seu amor – na verdade nos confundimos e machucamos as pessoas. Em vez disso, o que deveríamos fazer é crescer em nosso conhecimento da Palavra de Deus e de nosso próprio coração. Então estaremos mais sintonizados com a sua verdade conforme Ele a tem revelado — tanto no que se refere ao seu chamado para a santidade quanto no chamado para o amor.
A verdade e a humildade não deveriam ser inimigas. Na verdade, elas são grandes amigas e o crescimento real em uma delas deveria conduzir ao crescimento na outra.
Contudo, muito frequentemente nos tornamos uma caricatura de nossas inclinações. Ou nos tornamos pessoas que buscam conciliar ou que buscam a purificar.
As pessoas que buscam conciliar

As pessoas que buscam conciliar amam capítulos da Bíblia como João 17. Elas percebem claramente que nossa união com Deus em Cristo, e que nosso amor uns pelos outros demonstram o amor de Deus por nós (como Jesus ensinou em João 13.34-35). Elas amam os textos bíblicos sobre o amor:

• “Completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma coisa” (Fp 2.2);

• “Pensem concordemente, no Senhor” (Fp 4.2);

• “Que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer” (1Co 1.10);

• “Que o coração deles seja confortado e vinculado juntamente em amor” (Cl 2.2).

Nas últimas décadas temos visto muitos movimentos conciliadores entre cristãos professos. Há o velho ecumenismo liberal — “vamos juntar todas as denominações”. Há os ministérios para-eclesiásticos que reúnem pessoas de igrejas diferentes a fim de compartilhar o evangelho — desde Billy Graham até a Cruzada Estudantil. Há o movimento carismático que tem ajudado a produzir companheirismo entre igrejas que se encontravam afastadas havia muito tempo, e recentemente tem acontecido o que podemos chamar de Great Traditionalism, o qual se alicerça num “antigo denominador comum”. Vemos isso na atual moda de alguns evangélicos que usam métodos e coisas associadas ao catolicismo romano e à ortodoxia oriental como auxílio para a piedade.
Manoel Luiz

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